decalice

 

Alice Ruiz


Lembra o tempo

que você sentia

e sentir

era a forma mais sábia

de saber

e você nem sabia?



já estou daquele jeito

que não tem mais conserto

ou levo você pra cama

ou desperto



sem saudade de você

sem saudade de mim

o passado passou enfim

ainda te sinto

em tudo que permanece

como se tua pressa

de vida que se extingue

ficasse um pouco em tudo

ainda

minuto a minuto

quis

um dia

todo azul

no teu dia

 



já não temo fantasmas

invoco a todos

que venham em bando

povoar meus dias

atormentar minhas noites



A língua dos astros

Sobre o corpo


Deixa rastros

De perfeita conjunção

Um desejo dissimulado

Sob o signo interceptado

Não oculta a solidão



entre tantos

loucos e livres

existe um

que é doce

e que me falta

dizer não

tantas vezes

até formar um nome

Se


se por acaso

a gente se cruzasse

ia ser um caso sério

você ia rir até amanhecer

eu ia ir até acontecer

de dia um improviso

de noite uma farra

a gente ia viver

com garra

eu ia tirar de ouvido

todos os sentidos

ia ser tão divertido

tocar um solo em dueto

ia ser um riso

ia ser um gozo

ia ser todo dia

a mesma folia

até deixar de ser poesia

e virar tédio

e nem o meu melhor vestido

era remédio

daí vá ficando por aí

eu vou ficando por aqui

evitando

desviando

sempre pensando

se por acaso

a gente se cruzasse...

Que o breve 

seja de um longo pensar

Que o longo 

seja de um curto sentir

Que de tal forma 

que o tempo nunca leve

 

     

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