decgegorio

 

Gregório de Matos


A Inconstância dos Bens do Mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,

Depois da Luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria. 



Porém se acaba o Sol, por que nascia?

Se formosa a Luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia? 



Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza. 



Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância. 



Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados, 

Nessa cruz sacrossanta descobertos, 

Que, para receber-me, estais abertos, 

E, por não castigar-me, estais cravados. 



A vós, divinos olhos, eclipsados 

De tanto sangue e lagrimas abertos, 

Pois, para perdoar-me, estais despertos, 

E, por não condenar-me, estais fechados,



A vós, pregados pés, por não deixar-me, 

A vós, sangue vertido, para ungir-me, 

A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me.



A vós, lado patente, quero unir-me, 

A vós, cravos preciosos, quero atar-me, 

Para ficar unido, atado e firme.

     

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