decmanuel

 

Manuel Bandeira


Poética

Estou farto do lirismo comedido

do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e

manifestações de apreço ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho

vernáculo de um vocábulo



Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os enumeráveis



Estou farto do lirismo namorador

Político 

Raquítico

Sifilítco

Do lirismo que capitula ao que quer que seja for a de si mesmo.



De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem

modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

­Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

 



Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

— Diga trinta e três.

— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .

—Respire.

...

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e 

o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

     

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