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Manoel
de Barros

Mundo
Pequeno
VII
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer
nas leituras não era a beleza das frases, mas
a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
_ Gostar de fazer defeitos na frase é muito
saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda:
_ Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida
um certo gosto por nadas...
(...)
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

VI
De primeiro as coisas só davam aspecto
Não davam idéias.
A língua era incorporante.
Mulheres não tinham caminho de criança sair
Era só concha.
Depois é que fizeram o vaso da mulher
com uma abertura de cinco centímetros mais ou menos.
(E conforme o uso aumentava.)
Ao vaso da mulher passou-se mais tarde a chamar
com lítera elegãncia de urna consolata.
Esse nome não tinha nenhuma ciência brivante
Só que se pôs a provocar incêndio a dois.
Vindo ao vulgar mais tarde àquele vaso
se deu o nome de cona
Que afinal de contas, não passava de concha mesmo.
Uma didática da invenção

VII..............
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo,
ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos _
O verbo tem que pegar delírio.

VIII
Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.
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