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Adolescente somava o delírio e a crítica

Duda Machado


 

 

Não preciso falar da importância do letrista Torquato Neto para nossa música popular; muitos já o fizeram com o brilho e acerto.

Quero registrar apenas o impacto especial de seu talento sobre mim, que

acompanhava de perto com admiração e ao mesmo tempo com espanto por sua precocidade.

O que escrevo são lembranças do amigo, com um ou outro toque em busca do entendimento dos anos passados.

Conheci Torquato em casa de meus pais, na Salvador de 1961. Veio por conta de alguma encomenda ou recomendação, já que sua família era do Piauí e meu pai também.

Além da coincidência de estudarmos no colégio Maristas, descobrimos afinidades: mesmas preferências literárias e inclinação pelo cinema.

Tínhamos também dificuldades semelhantes, adolescentes: conflitos com a família, rebeldias. Creio que isso ajudou nossa aproximação. Lembro de uma conversa daquela que falamos com entusiasmo do candomblé como uma religião sem a noção de pecado, de sua sensualidade afirmativa etc.

Era um jeito de irmos à forra com a nossa formação católica.

Mas nem tudo era província ou preconceito na Salvador daqueles anos. Do Campo Grande ao Vale do Canela, havia um extraordinário ambiente de cultura, uma universidade refinada e atenta à arte contemporânea. Escola de música, de dança, de teatro, museu ativo, a pequena revolução artística-antropologica de Lina Bo Bardi no museu de arte popular, clube de cinema, concertos freqüentes na Reitoria e no convento de Santa Teresa.

À nossa volta, a "Roma Negra", na expressão de Roberto Rossellini.

Do Rio, de São Paulo, vinham os suplementos literários. Foi esse ambiente que impulsionou toda uma geração.

Reencontrei Torquato três anos depois, no Rio de Janeiro ainda encantado de 1964, onde fingíamos estudar na Faculdade Nacional de Filosofia.

É dessa época a evocação entre sentimental e non-sense do poema

Fantasma Camarada.

Como muitos outros da mesma idade, boa parte de nossa energia estava voltada para uma vagabundagem que acreditávamos inspirada.

Torquato me conduzia, fosse para uma viagem de observação à Central do Brasil, fosse para seguir o poeta Carlos Drummond de Andrade, da rua Joaquim Nabuco em Copacabana até o Castelo.

Naquela época, cheia de promessas dentro e fora, tínhamos a convicção de que iríamos crescer, amadurecer, mudar para alguma grandeza junto com o país.

(Simplifico para obter rapidez, mas não deformo).

À luz de hoje, isso forçosamente parece um delírio ingênuo, no entanto na época sustentava a expectativa e esta não excluía de modo algum  um dispositivo crítico, tão cultivado, ativo e fino como era Torquato.

De certo modo, essas duas dimensões estiveram presentes - mais tarde - no tropicalismo.

Como já disse, era Torquato que trazia as novidades  tão necessárias. Num bar da Cinelândia, emprestou-me a tradução dos Cantares de Pound feito por Décio Pigantari, Augusto e Haroldo de Campos. Mas as conversas corriam mais livres quando se tratava de cinema: Jerry Lewis, Nicholas Ray, Budd Boetticher - na boa esteira do Cahiers, os italianos, Bunnuel e já Godard.

Em breve, tornou-se o letrista formidável, parceiro de Gil e Caetano. E logo a revolução do tropicalismo. Em seguida, o desentendimento, a ruptura, o isolamento. Tudo apenas na velocidade de apenas quatro anos.

Depois de sua volta ao Brasil, nos reencontramos mais uma vez na Cinelândia, no Rio já assombrado de 1970. Seu abalo era visível. O jeito desajeitado e tímido parecia maior, com a defesa abaixada pelos golpes. Não que ele fosse - em esfera íntima - incapaz de agressão, mas isso acabava sempre em agressão maior a si mesmo. Era da raça dos que são "a faca e a ferida".

Então começaram as suas idas para o Engenho de Dentro. Nossa realidade era um meio-termo desgraçado entre o sufoco político e cotidiano, a destruição do ambiente cultural e as solicitações da contra cultura. "Ocupar espaços" - uma imagem muito empregada - na época - dava conta extremamente  do estreitamento. Também a sobrevivência era dura e magra.

Por tudo isso espantava-me que ainda tivesse forças para iniciativas como a revista Navilouca.

Acima das pequenas polêmicas  da época, sua coluna Geléia Geral interessava-me porque o seu talento continuava a transparecer nos poemas - rascunho, ele dizia - ali aplicados. Numa de nossas últimas conversas, numa tarde de setembro de 72 em Ipanema, ele confidenciou que estava começando a concentrar-se num livro de poemas.

Jornal Folha de São Paulo, domingo, 8 de novembro de 1992.