tordepoimento

Um Depoimento-Entrevista

de Décio Pignatari a Régis Bonvicino


 

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1 - Como você situaria Torquato? Um poeta letrista, ou um poeta que fazia

......poesia escrita?

DP - Torquato era um criador-representante da nova sensibilidade dos não-especializados. Um poeta da palavra escrita que se converteu à palavra falada, não só à palavra falada idioletal brasileira, mas a palavra falada internacional. 

A palavra falada do Português do Brasil - e não o brasileirês, fosse piauiense, baiano, carioca ou paulista. Não era de folclorizar a língua. Nisto seguia João Gilberto mais de perto do que  os seus companheiros baianos. Era mais de ideologia do que de magia.

 

2. O trabalho de Torquato representa, a meu ver, a projeção de certos modos de ....operar da arte construtivista, como a montagem, numa sensibilidade pop. Você ....concorda com isto?

DP - Talvez que um pop-construtivismo seja insuficiente para caracterizar o traço distintivo de Torquato, já que poderia ser aplicado a outros, na música e fora dela. Mas, se aceitarmos a idéia, que me parece interessante, ele estaria mais para Antonio Dias do que para Hélio Oiticica. 

Torquato não confundia Oswald de Andrade com Zé Celso. Outros podiam esconder a cabeça, ter receio de parecer high brow. Não torquato. Seu repertório cultural era mais amplo, seus roteiros mais seguros. A expressão geléia geral, que criei a empreguei em 1963, numa discussão com Cassiano Ricardo, ao expulsá-lo da revista Invenção, transformou-se num miniprograma crítico-criativo para Torquato, que não só a utilizou na letra famosa dos templos da Tropicália, como com ela batizou a coluna que manteve na Última Hora, do Rio de Janeiro. Seu modo de proceder na montagem/colagem/bricolagem tinha uma certa orientação, não era errático. 

3 Você afirmou, num de seus últimos artigos, que Oswald de Andrade foi o ...elemento radicalizador do processo de renovacão empreendido pelos nossos ...modernistas. Este mesmo raciocínio poderia ser transposto para Torquato em ...relação ao Tropicalismo?

DP - Não sendo cantor ou compositor é provável que se sentisse atraído para uma visão cultural mais ampla, uma vez que seu engajamento crítico-criativo não podia compromissar-se com a necessidade de manter a "solidariedade baiana" do movimento. Embora reconheça nele uma vocação para o radical, não acho que tenha representado a função oswaldiana a que você se refere. Se houve tal ponta-de-lança radical, ela foi antes representada por Rogério Duprat. Quem ouve música e não apenas letra constatar isso. Em complexidaade e qualidade, não há nada semelhantes aos arranjos de Duprat na MPB. Prefiro dizer que Torquato foi o  Mário Faustino do tropicalismo, o Mário tragicamente morto dez anos antes. Ambos, morto vocacionais. 

4. Qual a importância de Torquato como articulista, polemista, e ator, para o ....surgimento de um  novo cinema (Rogério Sganzerla, Júlio Bressane) em oposição ...ao "cinema novo"?

DP- Separado dos baianos, migrou para outros códicos. De sua coluna, na Última Hora carioca, infelizmente de curta duração abriu fogo contra o cinema novo, que já estava se academizando nos cargos e verbas oficiais. E apoiou a marginalidade dos experimentalistas (e isto poderá ter-lhe custado a coluna), como Sganzerla, Bressane, Ivan Cardoso, Luis Otavio Pimentel que representavam o lado urbano universalista do cinema brasileiro. Como ator, foi Nosferatu vampirizando baianos, no super-8 do Ivanzinho. Como editor, estava montando, junto com Waly Salomão, a Navilouca, que Caetano viria a co-patrocinar depois, como homenagem e  reeconciliação pósturma. Com sua morte prematura, completou o retrato falado de um cult artist. 

5. Você me contou, em conversa, que esteve com Torquato na véspera do suicídio. .....Fale um pouco sobre isso.

DP- Poucos contatos tivemos no início. Calado, recolhido, tímido. A diáspora dos Beatles. A desastrada, senão desastrosa viagem a Londres, o rompimento com os baianos no duro exílio, onde também os visitei, em 70. As mortes de Jimi Hendrix e Janis Joplin. Foi nos últimos dois anos que tivemos ligação um pouco mais estreita, eu lecionando na ESDI, ponte aérea.

Naquela noite, a de seu aniversário, tínhamos assistido a um filme cinemascópico do Sganzerla (de que não gostei, dizendo que me lembrava A Queda do Império Romano...). Por alguma razão careta, eu estava de saco cheio e não quis ir à festa. 

Combinei com Luiz Otávio para ver, no dia seguinte, às dez da manhã, no Cine Zero Hora, da Avenida Rio Branco, o seu curta sobre Oswald. 

Era um sábado, acho. Disse-me que deixara Torquato em casa de Ana, às 3 da madrugada. Vi o filme e me mandei rapidinho para o Aeroporto Santos Dumont.

Em São Paulo, mais do que depressa, fugi para o meu estúdio, recém-inaugurado, a 30 km de distância. Era novembro, eu estava ultimando a minha tese de doutoramento, Semiótica e Literatura, juntamente com uma tese subsidiária sobre cinema, onde pela primeira vez se levava a sério a obra deles no âmbito universitário.

Voltei para casa no domingo à noite, quando li, estupefato, na seção de arte de um jornal paulistano, a manchetinha: Enterrado Torquato Neto.

AGOSTO/1982)

FOGO CERRADO, Edição Especial, 8ª Ed. Circulando no 25º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, Novembro de 1992.