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Dez anos sem o poeta Torquato Neto


 

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Torquato Neto, um dos poetas do tropicalismo, morreu no dia 10 de novembro de 1972.

Torquato Neto nasceu em Teresina Piauí; aos 16 anos, estudava em Salvador, quando foi expulso da escola de padres; em Salvador conheceu Gil, Caetano, Bethânia, Gal; envolveu-se com o tropicalismo, quando tinha 23 anos; mudou-se para o Rio; morou em Londres; voltou para o Brasil; esteve casado cinco anos com Ana; tinha um filho dela, que em 72 estava com 3 anos. No dia 9 de novembro de 72, Torquato comemorou 28 anos. No dia 10, seu corpo foi encontrado no banheiro do pequeno apartamento onde vivia, na Tijuca.

Hoje, faz dez anos que Torquato Neto morreu.

Deixou cerca de 30 letras escritas, para músicas de Edu Lobo, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Foi poeta, jornalista e às vezes também músico.

Na noite anterior à sua morte - uma quinta-feira - esteve em algumas boates, acompanhado da mulher, Ana Maria, e de amigos. Sorria, falava de planos, conversava com os amigos.

Chegaram - ele e Ana - de madrugada em casa. Ana foi deitar-se no quarto.

Ele se deitou no chão do banheiro, rabiscou um confuso bilhete em três

folhas de caderno, abriu o gás do aquecedor. Quem o encontrou morto pouco depois das 10 da manhã, foi Maria da Graça, a empregada.

Torquato andava muito triste, pouco antes de morrer. Os que o conheceram ainda rapazinho, em Teresina, disseram na época de sua morte que ele chegara a ser uma pessoa sossegada, até certo ponto tranqüila. Foi mudando com o tempo. Até que no fim da vida tudo que ele fazia tinha sempre algo que ver "com uma revolta em relação ao mundo".

Ficara doente; os amigos preocupavam-se com o seu estado emocional. Tinha, inclusive, problemas com o seu trabalho de poeta e letrista. Queria ir

"muito além do que já houvera feito"- e se propunha a rever a sua produção.

No começo da década de 70, os estudiosos de música popular brasileira não tinha dúvida de que Torquato significava muito como letrista. Era dos mais importantes que haviam aparecido nos últimos dez anos.

Com Edu Lobo, compusera temas inesquecíveis, como Lua Nova e  Pra Dizer Adeus (era a fase romântica); com Gil, fez A Coisa Mais Linda que Existe; A Rua, Domingou, Marginália e Soy Loco Por Ti América (gravada em ritmo de merengue por Caetano Veloso); e, com Caetano, compôs Geléia Geral, Deus Vos Salve Esta Casa Santa.

 

BOM ALUNO - Torquato sempre foi bom aluno. Mas ainda garoto deu mostras de que iria resistir à estrutura convencional da escola. (Não gostava de matemática e recebia de sua mãe toda ajuda, quando ainda na escola primária).

Dona Maria Salomé era uma verdadeira matriarca. Sua influência sobre a formação de Torquato sempre foi clara, dizem os que conviveram com os dois.

Talvez por isso mesmo, aos 12 anos, Torquato lia Shakespeare. (Conheceu a obra completa e dela tirava conceitos, que discutia com os amigos e colocava em anotações).

 

- Torquato não confundia Oswald de Andrade com Zé Celso. Outros podiam esconder a cabeça, ter receio de parecer high brow. Não Torquato. Seu repertório cultural era mais amplo; seus roteiros, mais seguros.

 

Quem disse isto, há alguns meses, foi o poeta e comunicólogo Décio Pignatari, em entrevista a Régis Bonvicino.

Sua participação no movimento tropicalista, segundo alguns críticos, foi menor.

Gil Bethânia, Gal, Makalé, Caetano não concordam. Eles acham que Torquato foi um dos pensadores do movimento. E sua erudição, e também sua inquietação deram aos músicos do tropicalismo o "fio condutor da poesia".

 

O POETA E A MORTE - - O que matou o poeta?

A mãe de Torquato, logo que soube de sua morte, sentenciou:

- Quem o matou foi o Rio.

E por pensar assim, dona Maria Salomé da Cunha Araújo jurou nunca mais voltar lá.

Atitude bem diferente tomou o pai de Torquato, o senhor Heli da Rocha Nunes, promotor público em Teresina, que ao saber da tragédia decidiu imediatamente adotar crianças.

Adotou trinta e montou uma creche.

Classe média alta, quase sempre na vizinhança do poder piauiense, a família Araújo Nunes mimou em demasia o menino Torquato. Esse seria um dos motivos de sua forte timidez?

Seria motivo de sua tendência para ser exigente demais com os amigos, a mulher, a família, o mundo?

A leitura de informações biográficas a respeito de Torquato confirmam que ele tinha um nível excepcional de informação. A sua ligação com o desejo de conhecer sempre mais e melhor o levou sem dúvida ao exercício do jornalismo.

Trabalhou como repórter para uma agência de notícias carioca. Isso em 64 ou por essa época, quando entrara na escola de jornalismo, abandonando em seguida, embora participasse intensamente de movimentos estudantis.

Torquato redigiu uma coluna no suplemento O Sol, do Jornal dos Sports, do Rio, Trabalhou também na Última Hora carioca e em seu suplemento dominical.

Participou do suplemento Plug, do Correio da Manhã. Esse trabalho, agora, será todo revisto.

(A maioria dos textos publicados por Torquato acompanhados por vários

manuscritos que Ana e os amigos conseguiram recolher ou salvar do lixo -

Torquato tinha acessos de desespero e, quando isso acontecia, destruía seus papéis e anotações -  está num volume chamado Os Últimos Dias da Paupéria, editado um ano depois de sua morte, devendo ser lançado ainda neste mês, em reedição sob a organização de Ana e do poeta e letrista Wally Salomão).

Louro, magro, pés grandes, mãos longas, pálido. Assim era Torquato, que ganhou até o apelido de Nosferatu. Mas tinha um detalhe que o fazia sensual, diziam os amigos. Era a boca à Mônica Vitti.

Este carisma - de intelectual, difícil e sensual - ele deixou até hoje. Em sua carta de despedida, escreveu:

"Tenho saudade, como os cariocas, do tempo em que sentia e achava que era um dia de cego.

De modo que fico sossegado por aqui mesmo, enquanto durar. Pra mim chega!

Vocês aí: peço o favor de não sacudirem demais o Thiago que ele pode acordar".

Na redação confusa, divisava-se a ternura fundida à amargura e ao inconformismo.

O mesmo inconformismo provado certa vez, quando se encontrou com  Jaguar, um dos donos do Pasquim (que Torquato combatia incansavelmente). Ao ver Jaguar, não teve dúvidas. Arrancou-lhe os óculos. Pisou-os. E disse-lhe:

"Um cego não precisa de óculos".

ALUCINAÇÕES? - Em Londres, no ano de 89, Torquato teria conhecido Jimi Hendrix. Sobre o músico, Torquato escreveu muita coisa, falando de momentos delirantes provocados pelas drogas.

No Brasil, Torquato costumava conversar com os amigos sobre o seu exílio londrino. E não faltavam as lembrnaças do consumo de entorpecentes.

Os amigos de Torquato - deixando de lado as drogas - lamentam no entanto o quanto ele bebia. Nos últimos tempos de vida, a bebida o acompanhava a cada momento. Diversas vezes, o próprio Torquato se internou em clínicas psiquiátricas, "para se desintoxicar e dar um tempo".

Certa vez, analisando-se, escreveu:

"Não entendo como demorei tanto a compreender perfeitamente uma coisa tão simples: que eu faço da bebida exatamente o que o resto do pessoal faz com o pico; eu falo de pico com um instrumento mortífero. É preciso não beber mais. Não é preciso não sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morre na via pública".

Jornal da Tarde, 10 de novembro de 1982, página 11.